Weslley L Silva | Arquiteto de Soluções

De Funcionário de Fast Food a Arquiteto de Soluções: Como a Tecnologia Mudou a Minha Vida (e pode mudar a sua)

Se você chegou até aqui, é provável que esteja buscando uma saída. Talvez você queira migrar de carreira, esteja procurando sua primeira oportunidade ou simplesmente duvide que a área de TI seja para alguém como você.

Eu entendo perfeitamente esse sentimento. Eu sei o que é achar que a tecnologia é um clube exclusivo para gênios ou para quem teve a sorte de nascer em berço de ouro.

Hoje, aos 30 anos, eu sou Arquiteto de Soluções. Lidero projetos complexos conectando sistemas de grandes empresas espalhadas pelo Brasil. Sou especialista em plataformas de integração como o MuleSoft, trabalho do conforto da minha casa e ganho muito acima da média salarial do país. Hoje eu posso proporcionar uma vida no mínimo confortável para a minha família.

Mas a verdade que os perfis corporativos não mostram é que a minha história começou do avesso. Eu não fui o garoto prodígio que programava aos 10 anos. Eu fui o garoto que, aos 9, varria chão de restaurante.

Esta é a minha jornada. E eu decidi compartilhá-la no blog do Integrador de Dados por um único motivo: ajudar pessoas que querem mudar de vida.

 O começo

Eu não segui o caminho “natural” das coisas que seria: fazer uma faculdade, se formar, conseguir um estágio e crescer em uma empresa. Comigo foi totalmente ao contrário.

Eu nasci e cresci e fui criado em periferia, e não vim de uma família estruturada. Nunca tive um pai presente e minha mãe enfrentava graves problemas emocionais.

Fui criado pelos meus avós maternos, que eram analfabetos. Onde morávamos, eu era o irmão mais velho de mais dois irmãos. Desde cedo a responsabilidade bateu na minha porta. Aos 9 anos, eu passava algumas horas do dia em um restaurante onde meu tio trabalhava. Para o tempo passar, comecei a recolher copos e lavar louça. O dono viu meu esforço e passou a me dar 5 reais por semana. Juntei moeda por moeda até dar 45 reais para tentar comprar uma roupa no fim do ano.

Meu sonho nunca foi trabalhar com TI

Meu sonho era o de quase todo garoto de periferia: ser jogador de futebol. Lembro que cheguei a fazer um teste no Santos FC. Acordamos de madrugada (Minha mãe e eu). Meu café da manhã foi um copo de leite antes de entrar em campo. Passei mal, não aguentei o ritmo e fui reprovado. Na época eu não entendia muito bem, mas hoje eu compreendo – como um garoto vai performar num ambiente de alta competitividade quando a base da vida dele é apenas a sobrevivência e a fome?

O tempo passou e eu precisei focar em colocar dinheiro em casa. Aceitava qualquer tipo de trabalho. Por volta dos meus 13 anos, arrumei um emprego em um pizzaria. Entregava panfletos de dia e embalava pizzas a noite, muitas vezes ficando o dia todo sem comer nada.

Também já trabalhei como ajudante de pedreiro, ganhava R$25,00 para trabalhar o dia todo.

Por volta dos meus 17 anos, cheguei a trabalhar um tempo como ajudante de caminhoneiro. No meu primeiro dia de trabalho, descarreguei três caminhões inteiros de lata de tinta. Fui para casa sem conseguir levantar os braços, com os ombros e a coluna ardendo. No dia seguinte, tinha que levantar e ir de novo. Não tinha opção!

O crime estava na porta de casa. Eu vi amigos e familiares se perdendo nesse caminho, andando de moto nova e ganhando respeito fácil. Mas eu agradeço a Deus todos os dias por ter escolhido o caminho do suor.

Meu Primeiro Contato com TI

O primeiro curso de informática que fiz, pago com o suado salário mínimo da aposentadoria da minha avó, durou exatamente uma aula. Eu me achava burro demais para estar ali e desisti.

Anos depois, em 2013, no meu último ano do ensino médio, a pressão bateu: eu precisava decidir rapidamente o que fazer da vida. Foi aí que ouvi a famosa frase de que ‘TI pagava bem’. Então, comecei a focar nos estudos, mesmo sem nenhum direcionamento e sem saber direito por onde começar. Fui me matriculando em todo curso gratuito que aparecia pela frente. Naquela época, os cursos eram quase sempre presenciais e, como eu não tinha um centavo para a passagem de ônibus, ia a pé mesmo.

A rotina virou uma loucura. Cheguei a uma fase em que estudava três turnos em três escolas diferentes:

  • De manhã: ia para o Ensino Médio;
  • À tarde: ia para o Senai fazer um curso de hardware;
  • À noite: ia para uma escola técnica fazer o curso de técnico em informática.

Como eu disse, eu não tinha dinheiro para nada. Só conseguia frequentar as aulas porque ganhei uma bolsa do Senai, que cobria a passagem de ônibus daquele turno e um pequeno valor para o lanche. No entanto, como eu precisava ir para o curso técnico à noite (onde também tinha conseguido bolsa), eu era forçado a fazer uma escolha: usava o dinheiro do lanche para pagar a passagem noturna. Ou seja, eu estudava o dia inteiro, caminhava pra cima e pra baixo, sem comer absolutamente nada.

Mesmo com todas as dificuldades, consegui terminar os cursos, mas o mercado parecia um muro intransponível. Eu me candidatava a várias vagas, entregava currículos de forma presencial de porta em porta e não era chamado pra nenhuma entrevista.

No desespero, tentei trabalhar em uma gráfica falida como aprendiz. A promessa era ganhar 700 reais por mês, mas eles simplesmente não conseguiam me pagar. Por vários meses, trabalhei de graça. Tentei abraçar a oportunidade para ganhar experiência, mas, no final, a gráfica afundou e não deu certo. Desiludido, exausto e sem ver saída, desisti da tecnologia.

O Fast Food

O ano era 2016. Eu estava desesperado por emprego e me candidatei para uma vaga em uma loja de fast food. Fui contratado para trabalhar no turno da noite.

Essa foi uma das fases mais duras da minha vida. Às vezes eu virava a noite trabalhando. Se a equipe demorasse para fechar a loja, eu perdia o ônibus e voltava a pé por duas horas e meia de madrugada.

Mesmo ali, exausto e passando por um inferno pessoal em casa com a minha mãe e minha avó doentes ao mesmo tempo, eu decidi ser o melhor.

Lembro que as vezes eu tinha que sentar na câmara fria do restaurante, com uma faquinha na mão, raspando o rejunte do chão para deixar impecável, como o gerente exigia. Mas, mesmo ali, no frio e na exaustão, eu não desisti. Usei a habilidade de liderança que desenvolvi nas ruas e criei um grito de guerra com a equipe: “O que nós somos? Campeões!”. A energia mudou, a loja começou a bater metas e eu fui promovido a um cargo de liderança.

Com as novas responsabilidades no fast food, a TI voltou a cruzar meu caminho quase sem querer. Resgatei aquela minha base de estudos e criei o modelo de um “sisteminha” para facilitar a gestão de treinamentos da loja. Quando mostrei para o meu gerente, ele ficou fascinado e levou a ideia até a alta diretoria da rede. O resultado? Eles também gostaram e pediram para me conhecer. Eu precisava fazer uma apresentação oficial do sistema.

Passei a madrugada em claro, montando os slides no meu notebook velho que travava a cada clique. No dia seguinte, tremendo da cabeça aos pés, apresentei minha ideia para a diretoria. Eles elogiaram muito, pegaram todo o meu material… e simplesmente sumiram. Ninguém nunca mais me deu retorno. O projeto morreu ali mesmo.

Mas o meu esforço não passou despercebido.

O Ponto de Inflexão da minha vida — A Escolha que Mudou Tudo

Passado um ano, em 2017, o destino agiu de forma curiosa. Uma diretora da rede, que eu havia treinado meses antes na loja, lembrou-se de mim e do sisteminha que eu tinha desenhado. Ela me avisou sobre uma vaga de TI no escritório central e pediu meu currículo. Na mesma época, eu estava no meio dos testes para me tornar Gerente de Turno — um caminho que eu já conhecia, dominava e que me oferecia segurança.

E então, o destino resolveu agir com um certo senso de humor: os dois resultados saíram no mesmo dia.

Meu gerente me ligou:

— Weslley, preciso falar com você. Tenho duas notícias: uma boa e uma má.

Meu coração parou. Eu já imaginava o cenário: passei para gerente (o seguro) e fui reprovado na TI (o sonho). Respirei fundo e pedi:

— Conte a boa primeiro, chefe.

— Você passou no processo e foi promovido a gerente de turno! — ele disse, animado.

Engoli em seco e me preparei para o balde de água fria.

— E a má notícia?

— A má notícia — ele fez uma pausa — é que você também passou na vaga de TI para trabalhar no escritório corporativo.

Eu fiquei completamente confuso.

— Mas… qual é a má notícia nisso então?

— A má notícia é que você vai ter que escolher qual carreira quer seguir.

Ali, naquele telefonema, minha vida se dividiu em duas. De um lado, o mundo da loja: seguro, conhecido, onde eu era bom. Do outro, um mundo totalmente novo e assustador. Eu não fazia ideia de como me portar em um ambiente corporativo, não tinha roupas adequadas e, para piorar, o escritório ficava em outra cidade. Eu teria que me mudar ou enfrentar 8 horas diárias de trânsito (4 para ir e 4 para voltar).

Encarei todos os meus medos de frente e tomei a decisão mais difícil da minha vida: eu queria o escritório.

Eu mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Depois de tudo o que passei, do chão da câmara fria às madrugadas em claro, finalmente minha vez tinha chegado. O salário inicial na TI já era o dobro do que eu ganharia como gerente, sem contar os benefícios que eu nunca tive antes, como VR e plano de saúde, etc.

Aquela decisão mudou minha vida completamente. Enfrentei muitos desafios depois disso? Sim, muitos. O mercado me bateu, a síndrome do impostor tentou me pegar, mas eu fui resiliente. Enfrentei e venci cada desafio. E hoje, tenho um orgulho imenso de estar aqui contando essa história para você.

A persistência é o seu maior talento

E foi assim que eu consegui minha primeira oportunidade em TI. Hoje, olhando para trás, sou muito grato por ter passado por tudo o que passei até chegar ao momento atual da minha carreira. Sem dúvida, tudo o que eu aprendi na vida, todas as batalhas, frustrações, dores e lágrimas me tornaram mais forte.

Para mim, é um privilégio absoluto poder trabalhar sentado em frente a um computador, ganhando bem e próximo à minha família. Meu sonho inicial nunca foi seguir carreira no mundo corporativo, mas a tecnologia me possibilitou mudar de vida e proporcionar algo infinitamente melhor para as pessoas que eu amo.

Se você me perguntar hoje se a área de TI é difícil, eu vou te responder com outra pergunta: e qual profissão não é?

É fácil ser um professor ganhando pouco? É fácil ser um policial militar arriscando a vida todos os dias? É fácil estudar anos a fio para ser um policial federal? Nenhuma carreira de sucesso vem de graça. A diferença é que a TI tem o poder de mudar a sua realidade e a da sua família em uma velocidade que pouquíssimas outras áreas conseguem.

Eu não era o mais inteligente da sala. Não tive estrutura financeira ou emocional. Não tive um caminho pavimentado.

Mas eu tive uma coisa: persistência. Ninguém me deu nada de graça. Do chão gelado de uma câmara fria de fast food até me tornar um Arquiteto de Soluções especialista em integrações, cada degrau foi construído com resiliência.

Se você está lendo isso, com medo de dar o primeiro passo, achando que o mercado está saturado ou que você não é capaz, lembre-se: a barreira de entrada hoje não é ser um gênio do teclado. A barreira é não desistir quando os problemas aparecerem.

A tecnologia mudou a minha vida. E se você estiver disposto a pagar o preço do aprendizado, ela pode mudar a sua também.

🎥 Quer ouvir essa história com ainda mais detalhes? Eu gravei um vídeo completo lá no canal do blog contando toda essa trajetória real até a minha primeira vaga. Assista aqui: https://youtu.be/GN8AiFBUqGE?si=YHTKHFh_w6gHo3kM

Aproveite e me diga nos comentários: qual é a sua maior barreira hoje para correr atrás dos seus sonhos na tecnologia?

Forte abraço e até o próximo artigo!

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1 comentário em “De Funcionário de Fast Food a Arquiteto de Soluções: Como a Tecnologia Mudou a Minha Vida (e pode mudar a sua)”

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